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“Às Margens” resgata história de resistência dos povos do Vale do Mucuri

Às Margens coloca luz sobre temas como racismo, preconceito e intolerância para contar a história das comunidades remanescentes de quilombo do Vale do Mucuri

TEÓFILO OTONI – “Tia, deixa eu coroar Nossa Senhora. Ela olhou pra a mulher que estava do lado, a outra dona falou assim: menino não existe anjo preto, onde já se viu? Eu lembrei na hora: ué, mas Nossa Senhora não é preta? Eu sou bonito, mas não posso coroar Nossa Senhora, mas ela vê nós lá do fundo da igreja”. Para contar a história dos povos e comunidades tradicionais quilombolas e indígenas do Vale do Mucuri, o elenco de “Às Margens” fez um mergulho juntos em um processo de criação por mais de ano para dar vida aos personagens. O novo espetáculo do Grupo In-Cena de Teatro estreou em abril no Festival de Teatro de Curitiba (Fringe) e foi o grande destaque do Festival Nacional de Teatro de Teófilo Otoni (FESTTO).

Às Margens coloca luz sobre temas como racismo, preconceito e intolerância para contar a história das comunidades remanescentes de quilombo do Vale do Mucuri por meio de suas crenças e festas.  A peça traz à tona uma história de resistência e sincretismo do negro, das mulheres, dos índios como forma de mostrar a pluralidade de um povo que viveu e vive às margens da sua história.

“História de gente que se formou da mistura de toda essa gente, de línguas, de cor, de reza e canto, de dor, de força, coragem e lamento. De gente que andou por vales, abriu caminhos e se banhou em rios, gente que lavou sua alma em açudes e córregos, subiu montanhas, pisou em terra vermelha tingida pelo sangue dos que falavam e cantavam de forma diferente”.

 

Teatro político e de resistência

Quem assiste Às Margens percebe que trata-se de um espetáculo político e de resistência sobre o Vale do Mucuri. O texto toca em feridas ainda não cicatrizadas no sentido de denunciar situações de injustiças de todas as formas.

“Talvez eu esteja enganado, mas me parece que os cidadãos deste país estão acorrentados uns aos outros, todos com o pescoço imóvel. Olhando pra frente, observando sombras que titereiros projetam na parede com suas marionetes especialmente criadas para enganá-los. Parece que os brasileiros estão engolindo o absurdo com muita facilidade. Eu, eu gostaria de estar enganado”.

O espetáculo é dirigido pelo ator André Luiz Dias, e contou com a supervisão artística de Sidnei Cruz (diretor teatral e idealizador do projeto Palco Giratório/Sesc). (Por William de Jesus)

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